FESTAS DE PARANHOS
PATRIMÓNIO, FÉ E MEMÓRIA
Capela de Nossa Senhora da Saúde
e as Festas de Paranhos
A Capela de Nossa Senhora da Saúde no Largo do Campo Lindo.
Resenha histórica ilustrada
Paranhos, Porto
• 2026
Uma pequena capela no coração de Paranhos
No encontro entre a Rua do Campo Lindo e a Rua do Encontro
ergue-se uma capela de dimensões modestas, mas de extraordinária importância
para a história religiosa, social e afectiva de Paranhos. A sua memória não se
limita ao edifício: prolonga-se nas procissões, nas promessas, nas casas
caiadas para o dia da festa, nos doces e tremoços, nas bandas de música, no
fogo-de-artifício e nas multidões que, durante gerações, ligaram o Campo Lindo
à Arca d’Água.
A
história da actual Capela de Nossa Senhora da Saúde é feita de sucessivas
invocações e transformações. Antes de receber o nome por que hoje é conhecida,
foi capela de Nossa Senhora da Soledade, do Senhor dos Passos e do Encontro.
Esta sobreposição de nomes não traduz instabilidade; revela, pelo contrário, a
capacidade do lugar para acolher diferentes práticas devocionais e para
permanecer no centro da vida comunitária.
Também
as festas mudaram. A celebração religiosa deu origem a uma grande romaria, e a
componente profana, progressivamente deslocada e autonomizada, passou a ser
apresentada como Festas de Paranhos. O templo, o largo e o Jardim da Arca
d’Água formaram, assim, uma geografia festiva com dois pólos: no Campo Lindo, a
capela, a novena e a procissão; na Praça de 9 de Abril, o arraial, as
diversões, as bandas, o comércio e o convívio.
O Campo Lindo antes da capela
Em
meados do século XIX, Paranhos conservava ainda a feição de arrabalde rural,
marcado por campos, quintas, caminhos e pequenos aglomerados. O Largo do Campo
Lindo, também associado à designação de Aldeia Nova do Monte, era um ponto de
passagem e de reunião. Um projecto municipal de alinhamento destinado a
regularizar a praça, aprovado em Junho de 1862, mostra a organização do largo,
as construções existentes e o terreno reservado para a futura capela. O
documento é particularmente valioso porque demonstra que a implantação do
templo foi pensada em relação directa com o espaço público e com os caminhos da
freguesia.
Figura 1 — Projecto de alinhamento para regularizar a Praça do Campo Lindo, 1862. Arquivo Municipal do Porto, GISA, documento n.º 340192.
O
lugar já possuía, contudo, uma função religiosa antes da construção da capela.
Era ali que se realizava o Encontro entre os andores do Senhor dos Passos e de
Nossa Senhora, seguido do sermão proferido de um palanque de madeira. Uma
notícia de O Comércio do Porto, de 17 de Março de 1862, estimava em mais de
cinco mil as pessoas reunidas no largo para assistir à cerimónia. O número deve
ser lido como estimativa jornalística, mas testemunha a dimensão alcançada por
uma prática que antecedeu o edifício e ajudou a justificar a sua construção.
O
Campo Lindo foi, portanto, primeiro um lugar ritual e só depois o lugar de uma
capela permanente. Esta precedência explica por que motivo o templo ficou
durante décadas ligado ao nome de Capela do Encontro e por que a pequena Rua do
Encontro, ao lado da fachada, conserva ainda hoje a memória dessa antiga
encenação da Paixão.
Da capela de madeira ao edifício permanente
A
primeira capela foi edificada em madeira, em 1864, num terreno que a tradição
documental associa à família Loureiro. A iniciativa é atribuída ao reverendo
António Gomes Ferreira, que percorreu a freguesia pedindo esmolas aos
paroquianos. A construção nasceu, deste modo, de um esforço colectivo: não de
uma grande encomenda institucional, mas de donativos, devoção e trabalho
comunitário.
Nesse
mesmo ano, Manuel Alves de Oliveira Paranhos, natural do lugar do Casal e então
residente na Rua do Sol, no Porto, ofereceu a imagem de Nossa Senhora da
Soledade. Foi sob esta invocação que a capela abriu aos fiéis. A escolha era
coerente com a importância local da Procissão dos Passos e do Sermão do
Encontro: a Virgem dolorosa, que contempla o sofrimento do Filho, estava no centro
da dramaturgia religiosa que animava o largo.
Figura 2 — Registo histórico da Capela do
Campo Lindo, identificada no próprio documento como edificada em 1871. Data da
fotografia não apurada.
Sete
anos depois da construção provisória, em 1871, a capela ganhou um corpo
duradouro em alvenaria. A data é confirmada pela tradição local, pela
identificação do registo fotográfico antigo e pela inscrição MDCCCLXXI
existente na fachada. A forma actual resulta, porém, de intervenções
posteriores. A página patrimonial da Freguesia de Paranhos refere 1971 como
data do “edifício actual”, o que poderá corresponder a uma grande reconstrução
ou remodelação e não ao nascimento da capela. Uma pequena marca visível junto a
um dos óculos assinala ainda 1997, indiciando nova reparação. Assim, importa
distinguir a fundação de 1864, a edificação pétrea de 1871 e as campanhas de
obras do século XX.
Figura 3 — Pormenor da fachada e do alçado lateral. São visíveis o portal de granito, os óculos e a marca de uma intervenção datada de 1997. Fotografia de 22 de Fevereiro de 2007.
Arquitectonicamente,
o templo apresenta uma linguagem sóbria. A fachada branca é enquadrada por
cantaria granítica, rematada por frontão triangular, cruz e pequenos pináculos.
O portal principal, de arco apontado, é ladeado por dois óculos circulares; no
frontão abre-se um pequeno campanário com três sinos. A base revestida a
granito protege o edifício da humidade e reforça a sua presença no estreito
encontro das ruas.
Soledade, Passos, Encontro e Saúde
A
primeira invocação, Nossa Senhora da Soledade, manteve-se até 1873. Nesse ano,
o Senhor dos Passos passou a ocupar o lugar de orago. A documentação
jornalística mostra como estas devoções se entrelaçavam com o calendário civil.
Um recorte de O Comércio do Porto, de 9 de Março de 1870, informa que a
Procissão dos Passos, prevista para o dia 13, foi transferida para 18 de Março
porque as eleições de deputados obrigavam à utilização da igreja paroquial como
assembleia eleitoral. A notícia, breve mas expressiva, coloca lado a lado
religião, política e vida quotidiana.
Em
1873, já com a capela completamente edificada, a imagem de Nossa Senhora da
Soledade saía do templo para se incorporar na Procissão dos Passos. A
cerimónia, realizada no segundo Domingo da Quaresma, reunia no largo os
cortejos vindos de direcções diferentes. O pregador subia ao Passo do Encontro;
depois do sermão, os andores seguiam juntos. O abade de Gondalães ficou
particularmente lembrado pela eloquência dos seus sermões.
Em
1879 foi oferecida à capela a imagem do Senhor Morto, por António Rodrigues de
Barros Freire. A existência simultânea das imagens do Senhor dos Passos, de
Nossa Senhora da Soledade, do Senhor Morto e, posteriormente, de Nossa Senhora
da Saúde revela uma capela de devoções acumuladas, ligada tanto aos ritos da
Paixão como à procura de protecção perante a doença. No altar, a memória local
situava Nossa Senhora da Saúde do lado da Epístola e Nossa Senhora da Soledade
do lado do Evangelho.
Figura 4 — Pagela de Nossa Senhora da Saúde de Paranhos. Reprodução fotográfica, século XX, data não apurada.
No
final do século XIX, o edifício era correntemente designado Capela do Encontro.
Só no princípio do século XX se generalizou o nome de Capela de Nossa Senhora
da Saúde ou Capela do Campo Lindo. A mudança não apagou as devoções anteriores:
incorporou-as numa nova invocação mariana, especialmente próxima de famílias
confrontadas com a doença, a convalescença e o desejo de cura.
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“O vos omnes qui transitis per viam, attendite et videte si
est dolor sicut dolor meus.” Inscrição
da fachada, inspirada nas Lamentações 1, 12 |
A
inscrição latina colocada sobre o portal — “Ó vós todos que passais pelo
caminho, considerai e vede se há dor semelhante à minha dor” — conserva na
própria arquitectura a antiga devoção à Soledade. A fachada actual é, por isso,
um documento de pedra: mesmo quando o nome do templo mudou, a memória da Virgem
dolorosa permaneceu inscrita sobre a entrada.
Figura 5 — A capela e a estreita Rua do Encontro, vista a partir do Largo do Campo Lindo. Fotografia de 22 de Fevereiro de 2007.
O nascimento da grande romaria
Em
Agosto de 1887 foi requerida e deferida licença para festejar a imagem de Nossa
Senhora da Saúde. A Freguesia de Paranhos associa a esse momento a aquisição da
categoria de Festas da Cidade, sinal da importância que a romaria assumia já no
espaço portuense. Dois anos depois, A Palavra noticiava a procissão realizada
em 15 de Setembro de 1889, saída da então chamada Capela do Encontro, e
descrevia a imagem de Nossa Senhora da Saúde como tendo sido encontrada, anos
antes, quase abandonada numa quinta de São Mamede de Infesta.
A
nova festa não surgiu num vazio. Herdou o largo, os percursos, os sermões, a
organização colectiva e o hábito de receber forasteiros que já caracterizavam
as celebrações dos Passos e do Encontro. A invocação da Saúde acrescentou uma
relação particularmente íntima com o sofrimento humano: entrava-se na capela
para acender velas, entregar esmolas, cumprir promessas e agradecer o regresso
à vida de familiares doentes.
Com
o crescimento da romaria, a componente religiosa concentrou-se no Campo Lindo,
enquanto a feira e os divertimentos ganharam expressão no Jardim da Arca
d’Água, na Praça de 9 de Abril. Esta separação favoreceu o uso da designação “Festas
de Paranhos” para a parte profana. Não se tratava, contudo, de duas festas sem
relação: a procissão, os arraiais, a feira e o encontro de famílias formavam
uma única experiência comunitária, vivida em espaços próximos e complementares.
Figura 6 — Pormenor da romaria de Nossa Senhora da Saúde na Praça de 9 de Abril, popularmente conhecida por Arca d’Água, cerca de 1920.
Uma festa feita de fé, rua e vizinhança
Antigamente,
os festejos prolongavam-se por cerca de oito dias e os arraiais entravam pela
madrugada. O dia da Senhora da Saúde mobilizava toda a vizinhança. Caiavam-se e
pintavam-se as casas; estreavam-se fato, chapéu e sapatos; as ruas eram
ornamentadas com troncos de pinheiro, balões e pequenos copos de sebo que,
acesos, criavam efeitos luminosos. A festa transformava temporariamente a
paisagem e permitia a cada família participar na apresentação pública da
freguesia.
A música ocupava um lugar essencial. Bandas filarmónicas, bombos e ferrinhos acompanhavam a animação, enquanto os despiques de viola podiam prolongar-se até alta madrugada. Na procissão, o som marcava o andamento do cortejo e anunciava a passagem dos andores; no arraial, convocava a dança e o convívio. A festa era ouvida antes de ser vista.
Figura 7 — A imagem de Nossa Senhora da Saúde à saída da capela, rodeada pela multidão. Registo contemporâneo, data não apurada.
As crianças também participavam na representação religiosa. Nas antigas Procissões do Encontro, as filhas dos lavradores mais abastados vestiam-se de anjos e exibiam adornos de ouro. A memória popular recorda que o peso das jóias era compensado com a oferta de cavacas de Paranhos. O costume, hoje distante, mostra como a procissão articulava devoção, estatuto social, abundância doméstica e tradições alimentares.
Em redor do sagrado crescia a economia da romaria. Vendiam-se os célebres doces de Paranhos, tremoços, loiça, brinquedos, melancias e melões. As barracas de comes e bebes recebiam moradores e visitantes; as diversões atraíam crianças e jovens; o comércio local beneficiava da passagem de milhares de pessoas. A romaria era simultaneamente acto religioso, feira regional e ocasião de reencontro para quem vivia fora da freguesia.
Figura 8 — Grupo de bombos durante a romaria de Nossa Senhora da Saúde. Registo contemporâneo, data não apurada.
Declínio e renascimento no século XX
Como muitas festas populares, a romaria conheceu períodos de grandeza, declínio e recuperação. Em certas épocas, a dimensão festiva enfraqueceu e sobreviveram sobretudo as orações e os cânticos. A memória local atribui a José Aroso um papel decisivo no renascimento da tradição; outras fontes destacam as comissões de bairristas, a Junta de Freguesia e o seu presidente Germano Rodrigues. Em vez de uma autoria única, estes testemunhos revelam uma continuidade assegurada por sucessivas gerações de organizadores.
O programa de 1952 apresenta a romaria como reatada pela Junta de Freguesia e as Festas de Paranhos decorreram, nesse ano, de 16 a 25 de Agosto. A Praça de 9 de Abril encheu-se de barracas, recordações, loiças, brinquedos e vendedores de fruta. Houve concertos de várias bandas — com especial referência à Banda da Polícia de Segurança Pública —, sessões de fogo-de-artifício e decorações concebidas expressamente para o acontecimento. A festa era apresentada como prova do dinamismo de uma freguesia em acelerada transformação urbana e industrial.
Em 1958, Juliano Ribeiro descrevia a celebração como uma das mais famosas do distrito do Porto. Salientava os milhares de forasteiros, o movimento comercial, as bandas, a feira, os comes e bebes, as diversões e o fogo. Mas insistia em que a fé não desaparecera: dentro da capela permaneciam as velas, as esmolas, os ex-votos e os agradecimentos pelos doentes recuperados. Esta coexistência entre devoção e espectáculo é uma das chaves para compreender a longevidade da festa.
Figura 9 — Iluminação festiva no Largo do Campo Lindo, com a capela à direita. Fotografia nocturna, data não apurada.
As crónicas de 1982 voltam a falar de “renascer da tradição”, demonstrando que a continuidade nunca foi automática. Cada recuperação exigiu novas comissões, recolha de fundos, negociação de espaços e renovação do programa. A designação Festas de Paranhos reforçou o carácter agregador do acontecimento, capaz de representar a freguesia inteira sem abandonar a origem religiosa no culto de Nossa Senhora da Saúde.
A continuidade da festa
Na actualidade, a celebração continua organizada em torno do mês de Agosto e mantém os dois centros históricos: o Largo do Campo Lindo e o Jardim da Arca d’Água. A componente religiosa integra novena, missas e procissão; a programação popular inclui música, gastronomia, convívio e espectáculos. A Confraria de Nossa Senhora da Saúde conserva a dimensão devocional, enquanto a Freguesia de Paranhos assegura uma parte importante da organização pública e cultural.
Os registos fotográficos contemporâneos mostram uma romaria profundamente urbana, mas ainda baseada na proximidade. A multidão comprime-se diante da pequena porta; o andor emerge entre flores, estandartes e músicos; moradores e visitantes ocupam ruas que conservam a escala de uma antiga aldeia. A transformação de Paranhos não eliminou, portanto, o vínculo entre o templo e a comunidade.
Figura 10 — A capela no tecido urbano do Campo Lindo. Fotografia, data não apurada.
Conclusão — um património que vive na memória
A Capela de Nossa Senhora da Saúde vale muito mais do que a sua reduzida dimensão arquitectónica poderia fazer supor. Ela materializa a passagem de Paranhos rural para a freguesia urbana, preserva a memória das antigas Procissões dos Passos e do Encontro e continua a dar sentido a uma das maiores celebrações populares da zona norte do Porto.
A sua história demonstra que o património não é apenas pedra. É também o caminho percorrido pelos andores, o sino que chama, a promessa feita por uma família, a casa caiada, o fato novo, a doceira, a tremoceira, o músico, o fogueteiro, o feirante e a comissão que recomeça quando a tradição parece enfraquecer. Entre o Campo Lindo e a Arca d’Água, as Festas de Paranhos construíram um território de pertença.
Preservar esta memória exige reunir documentação dispersa, identificar fotografias, ouvir os moradores e distinguir factos comprovados de datas repetidas sem esclarecimento. Mas exige igualmente que a festa continue a ser vivida. Enquanto a imagem sair da capela e a população ocupar as ruas, Nossa Senhora da Saúde permanecerá não apenas como devoção religiosa, mas como símbolo de continuidade, solidariedade e identidade colectiva de Paranhos.

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